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O Governador do Distrito Federal (José Roberto Arruda – DEM) está mais uma vez metido em escândalo de corrupção. Em 2001 (quando senador) ele foi flagrado em uma violação do painel eletrônico do Senado que resultou em sua renúncia. Agora a denúncia é por desvio de verbas, propinas, compra de votos de parlamentares, fraudes em licitações para favorecimento de empresas e formação de quadrilha. Tudo surgiu após a circulação de materiais pelo ex-secretário de relações institucionais do governo (Durval Barbosa Rodrigues). São de gravações e documentos em que apresentam operações de distribuição de propina (suborno) pelo GDF. A já famosa operação "Caixa de Pandora" ganhou alta relevância nacional, dado que trata-se do único governo do DEM no Brasil, e que o Arruda projetava-se há tempos como possível vice na próxima disputa presidencial.
Todavia a corrupção é só a ponta do iceberg do governo Arruda/PauloOctávio. Eleitos em 2006 com uma proposta de modernização da política local, nestes 3 anos de mandato vimos o implemento de uma política neoliberal em todos seus aspectos tradicionais: abertura ao capital internacional, desregulamentação de direitos – em especial trabalhistas, ataques diretos ao meio ambiente, privatização de serviços (em especial saúde), criação de agências reguladoras de caráter duvidoso, perseguição a moradores/as de rua e derrubada de moradias populares, criminalização dos movimentos sociais. Além disso, o vice governador é proprietário dos principais jornais da cidade (Correio Brasiliense e Jornal de Brasília) e também de uma rede de TV local (TV Brasília, canal 8).
– É muita falta de absurdo! Diriam alguns.
Mas é só mais uma forma monstruosa de se construir uma sociedade desigual.
Arrudismo e Rorizismo
Essa máquina política de construção de monstros não surgiu do nada: a forma atual de organizar o poder no DF construiu-se em oposição ao tradicional coronelismo comandado pelo ex-governador do Distrito Federal (Joaquim Roriz). Este, que é a materialização dos conluios dos grandes fazendeiros e donos de terras da região (oligarquias rurais) fez uma política de coronelismo clássico, com grandes desvios de recursos para grupos próximos, obras irregulares, assistencialismo populista e cooptação dos movimentos populares.

Desde sua primeira indicação como governador biônico em 1988, até suas eleições em 1990, 1998 e 2002, foram 14 anos do Roriz no governo do DF. E, claro, seu modelo enfraqueceu-se tanto por uma oposição moral como também porque era um jeito muito fechado de fazer política, sem abrir-se de verdade pros empresários de fora que queriam investir aqui. O descontentamento popular crescente, ampliado pelos movimentos sociais (sindicais, populares, estudantis) enfraqueceram as bases desta estrutura dominadora. Um golpe quase final no Roriz foi sua renúncia no senado em 2007, quando foi descoberto em mais uma mutreta.
É da crise do modelo "rorizista" de poder emerge o governo Arruda/PauloOctávio, formado por técnicos e gestores estatais; uma nascente burguesia local (que atua principalmente no setor da construção civil, especulação imobiliária) a que pertence PauloOctávio, grande especulador imobiliário do DF; investidores internacionais em busca de novos mercados no Brasil adentro dos eixos litorâneos e outros grupos econômicos de tipo "moderno". Um discurso atraente, que agrada bastante a algumas pessoas conservadoras da cidade que faziam oposição ao Roriz não por ele ser injusto e desleal, mas sim por relembrar uma política atrasada, caipira.
Obviamente os grupos de economia "moderna" tinham lucros exorbitantes no esquema rorizista, assim como as grandes oligarquias tem favorecimentos no esquema Arruda/PO. Mas em cada modelo lidera um setor da burguesia que empreende projetos de maior favorecimento ao seu grupo, realizando a conformação de poderes dessa forma. De forma jocosa, se uma crítica famosa ao Governo Roriz era de que o seu programa assistencialista do "pão e leite" comprava o leite das fazendas da família do governo, a luta incessante para construção do Setor Noroeste e outras áreas urbanas é para favorecer os grupos do atual vice-governador. Cada governo organizar-se-á a partir de seu plano econômico e grupos políticos conservadores que o apóiam.

Não é uma modernização que temos no DF, mas outra forma de fazer a mesma coisa. As pessoas comuns continuam enfrentando mil barreiras para a única coisa que todos/as temos direito irrefutável neste mundo: de uma vida digna, feliz e com responsabilidades iguais às possibilidades. É uma modernização conservadora que, aliás, aumenta a miséria dessa cidade.
Governo Arruda e lucro
O governo Arruda/PauloOctávio se organizou desde uma plataforma de Choque de Gestão, onde uma série de políticas inovadoras em 3 projetos principais: Brasília Integrada (Transportes), Brasília Sustentável (Especulação imobiliária) e Brasília Digital (Industrias automotivas e de tecnologias). Estes três projetos estão ligados diretamente a grupos de investidores e formas de captação de recursos para o estado local. E para colocar em prática esses ambiciosos projetos, uma série de reformas e atropelos sociais precisam ser realizados.
Para aprovação do Plano Diretor de Ordenamento Territorial (PDOT) tivemos um processo pra lá de duvidoso, sem consideração de quaisquer demandas diferentes das do governo. A câmara legislativa votou de forma vergonhosa o documento. Tanto que a aprovação da redação final, repleta de irregularidades (ambientais técnicas e jurídicas) foi embargada pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal. O embargo, (nada) coincidentemente, foi cassado a toque de caixa pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes. Assim foi aprovado o projeto do PDOT. Mas este exemplo poderia servir também ao projeto Brasília Integrada, ao projeto do Setor Noroeste, à expansão imobiliária porque a cidade passa. A governabilidade do GDF envolve corrupção, processos estranhos e atropelo social.
O que fica colocado a nós é que cada forma de governo no DF responde a uma relação de organização da elite local, uma disposição de poderes entre as elites aqui colocadas. Os governos estão organizados para servirem, pura e simplesmente, a interesses econômicos de grupos diversos que o sustentam politicamente. É para satisfazer a interesses dessas formas de poder que tantas e tão seguidas vezes a corrupção é realizada. Pois, se justamente os projetos estratégicos do governo são os que impulsionam uma política de corrupção, o óbvio é que a corrupção deste governo só existe porque as forças políticas que o sustentam precisa dela!
Então, se o governo está envolvido agora em um mega esquema de corrupção, não se trata puramente de desvio pessoal ou mau-caratismo de uma ou outra pessoa. Trata-se certamente de uma forma como o poder no DF está consolidado, pra além de Arruda e Paulo Octávio. Podemos neste momento ampliar o questionamento da corrupção Arruda/PO a todo seu grupo político/econômico. Parece ser imediato e urgente diagnosticarmos claramente quem financia a corrupção do governo, e derrubar estes grupos juntamente ao executivo. E na elaboração das nossas pautas vale também avançar pra além do "Fora Arruda/PauloOctávio/Roriz"(que são pautas importantes, mas ainda insuficientes). Derrubar Arruda é a tarefa imediata de curto prazo, e precisamos pensar as tarefas de médio/longo prazo.
Parece importante lembrar, afinal, que o caso está em aberto, ou seja, existe uma disputa tanto sobre a situação atual e encaminhamento da questão como sobre qual será a possível transição. Poderemos sair desse momento com a cassação de Arruda/PO e a construção de novas eleições imediatas? Teremos um governo provisório até o final do ano que vem para então novo pleito? Arruda/PO permanecerão no cargo enfraquecidos até a disputa de 2010? Intervenção Federal no DF? Reforma política ampla com maior participação popular? Quais alternativas estamos trabalhando de fato? E, enfim, estamos em busca de um novo senhor?
Tomara que sejam fortes as compreensões do sistema geral do qual os esquemas de corrupção fazem parte. Não vamos só mudar as regras do jogo – esse jogo de poder e tal – mas sim o próprio jogo. Por esse motivo a tarefa é árdua.
A nós, anticapitalistas, não cabe uma discussão unicamente de qual será o melhor ou menos pior governo. Lutamos contra uma sociedade desigual e exploradora, que tem uma forma ampla de organização. Já tivemos experiências locais de governos à esquerda que não foram satisfatórias. E, talvez, justamente porque não reorganizaram, destruiram ou fizeram outro poder.
Porque essa é a tarefa dos/das que vem de baixo.
Aceitamos o desafio?
fonte: nigganark em http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2009/11/459571.shtml